What If?


Gente, tive um sonho muito estranho. Sonhei que o whatsapp parava de funcionar totalmente, mas não só ele, o instagram e o facebook também! Por horas e horas, parecia que era uma vida toda! Claro que, no sonho, meu primeiro pensamento era de problema no wifi, depois reiniciei o celular (óbvio), mas vi que era isso mesmo, nada funcionava.

O mais estranho é que, no sonho, eu ficava meio aliviada. Porque eu tinha certeza de que não estava perdendo nada. Ninguém estava postando nem lendo postagens, nem vendo vídeos, nem procurando saber da vida alheia, nem querendo saber da minha vida. Se ninguém está vendo nem fazendo, então não tem FOMO - fear of missing out - , uma praga recente, relacionada a você achar que se não assistir a todas as lives que estão acontecendo, ou eventos no youtube ao vivo, ou aulas naquele momento, você, sei lá, vai perder tudo o que conquistou, o respeito das pessoas, não vai mais saber nada do que sabia, não vai ter assunto, vai ser excluída dos grupos, vão te chamar de alienada. E aí a gente assiste desde organização de marmitas da semana, passando por questões seríssimas como julgamento sob perspectiva de gênero e doenças do trabalho, treinos de fortalecimento, aula surpresa sobre LGPD, e ainda com a cabeça fritando, pega da metade em diante - frustrada - uma live imperdível sobre branding e marketing digital, para depois relaxar vendo os stories de alguma pseudo celebridade de instagram em lua de mel ou viagem de lazer - embora ela poste cada passo dado, mas é tudo bem espontâneo, diz ela.

No sonho, meu filho riu de mim porque não tenho tiktok e ele tem, e essa rede magnífica - contém ironia - estava funcionando, ou seja, se eu fosse a mãe-professora-juíza tiktoker, que posta dancinhas, estaria inserida no sistema ainda. Oh que puxa.

E era exatamente essa minha alegria no sonho: eu não tenho nem twitter - a rede da treta, na qual depois o Mark, amigão, Markinho - pedia sorry pelo ocorrido, enquanto provavelmente perdia dinheiro, mas ainda sobrava muuuuuito, nem tiktok, a rede que, bom, sei lá o que faz.

E no sonho eu sabia que não precisava olhar as notificações, que eu receberia apenas e-mails, como de fato aconteceu, e eu achei legal receber e-mails, não ficava nervosa para responder com tanta pressa, não estabelecia propriamente conversas. O telegram até funcionou, mas acho que também deu pane em algum momento ou o povo desistiu mesmo.

Eu sei é que no sonho eu descobria que tinha algumas horas pela frente sem ficar achando que precisava dar "só uma olhadinha" no instagram, nem responder quase instantaneamente mensagens de whats. Claro que eu precisei, no sonho, anotar contatos que eu teria que fazer quando tudo voltasse, porque usar o telefone com sua função original - fazer uma ligação - continuava fora de cogitação, gastei toda minha cota de conversa telefônica até os 18, 19 anos, e sou muito grata por não me ligarem. Eu também não telefono, então, de nada.

Eu anotei que tinha que confirmar consulta e uma massagem e marcar faxina do meu apartamento. E pensando bem, no sonho, não tinha mais nada tão urgente. Aquele hábito de contar para alguém quando alguma coisa simples acontece - tipo o PJE, nossa alegria de viver, cair, não podia ser implementado imediatamente, e, vejam só, depois, não faz mais sentido mandar.

Neste sonho bizarro, me peguei pensando quantas vezes eu interajo sem necessidade com pessoas aleatórias (embora faça isso com muita gente querida também, ok?), só porque está à mão o telefone com o whats. Será que isso me aproxima das pessoas realmente, ou só estou fugindo do que tenho que fazer? E que a verdade é que, se alguém quiser saber o que estou lendo, se vou ter mais algum curso este ano, se vou lançar um livro, vai me perguntar quando tiver oportunidade, sem desespero. Se esquecer, é porque o interesse era menor do que pensava. E se depois lembrar, vai valorizar a resposta. O que for importante e urgente, e exigir uma resposta formal, virá por email, e ficará registrado, que beleza.

E no sonho eu revisei minutas de sentença, li processos e muita jurisprudência acumulada das minhas férias, criei teses, e fui estudar, organizar minhas atividades fora da rede e para quando as redes voltassem, usando minha linda agenda física, na qual eu escrevo com canetas de cores diferentes. Fui olhar meu caderno de ideias e anotações e verificar pendências, relembrar aquelas ideias que temos, e que mandam anotar, e eu anoto, mas depois nunca mais acho a anotação e esqueço até o contexto. Pois pasmem, até post it eu coloquei nas páginas do caderno com os assuntos, e finalmente tirei do papel, literalmente, algumas daquelas ideias, para passar para outros papeis, de realidade. No sonho eu estava super produtiva sem me desesperar, só fluindo.

Então no sonho eu li, sem o péssimo costume que estou pegando de parar, depois de mais ou menos duas ou três páginas para ver nas redes do Markinho, se não veio nada "urgente", ou "importante", melando a leitura até ali, tendo que voltar um pouco porque obviamente não fixei. Levantei, fiz um café com leite de coco e especiarias, muito mais devagar do que de costume, no silêncio e sem levar o celular na mão, e voltei a ler com o café em uma mão, e o livro na outra. Única interrupção durante o tempo que estabeleci para isso.

Li até chegar a hora de ir buscar o Arthur no colégio para levar para o Taekwondo, sem poder avisar para ele que ia atrasar porque tinha que abastecer o carro e tinha obra no caminho, e lembrei que minha mãe nunca pôde me avisar que ia chegar atrasada e eu ficava na porta do colégio sentadinha na certeza (quase) de não ter sido esquecida. A gente foi para o Taekwondo ouvindo um podcast (um dos tantos), eu adoro, e conversando, e ganhei muitos beijos de filho.

E então eu acordei do sonho, no momento em em que ele estava na aula de taekwondo e eu estava, ainda, ou de novo, lendo um livro entre um e outro golpe dele. E acordei pensando: what if? e se fosse verdade?

Fiquei chateada porque, neste sonho, as redes pararam de funcionar de supetão, então nem deu tempo de combinar um encontro pessoal com alguém, um café no shopping ao lado do colégio, um papo mais longo com a vizinha. Talvez se eu soubesse, tivesse me preparado melhor. Sendo dia de semana, também não era o caso de ver um filme na netflix, até pela culpa que dá na pessoa, e a percepção de que eu tinha...TEMPO. Aquele senhor implacável, eu estava domando, e involuntariamente, mas percebi que seria possível, afinal.

Com esse what if, estou aqui pensando: que tal estabelecer a meta de sonhar acordada, pelo menos duas vezes por semana, duas tardes, ou duas manhãs, para começar de leve, que as redes caíram, e depois de tudo o que for feito sem elas, anotar quanto tempo levei e o que fiz, comparando com a lista da agenda?

Eu não sou crítica das redes, sou crítica de nós, usuários, e de muitos que as alimentam de modo a nos manipular com os maravilhosos algoritmos. Nas redes fiz novas amizades, conheci pessoas incríveis, especialmente de 2020 para cá, e foram fundamentais para manter um pouco da sanidade neste período medonho de pandemia. Sabendo usar, é lindo. Meu trabalho também está nelas, por elas posso fazer o que adoro, compartilhar conhecimento e conteúdo que estudei para muita gente, e criar uma comunidade cada vez maior e melhor do povo do direito do trabalho e da excelência, sem perfeição. Mas não somos só isso. É bom lembrar disso de vez em quando. Obrigada, Markinho.














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