Sobre as coisas acontecerem a seu tempo e modo...eu e Itajaí


Eu trabalhava em Balneário Camboriú, uma das cidades mais desejadas do Brasil para passear e morar. Então, estava morando onde as pessoas passam férias (sim, a gente vira local e fica abusada falando isso). Gosto muito da cidade, e para esclarecer, porque eu mesma levei tempo para acostumar a falar certo, Balneário Camboriú é uma cidade, Camboriú é outra. Uma grudada na outra. Balneário, como o nome indica, é onde tem praia. "A" praia. Mas digo isso porque as pessoas me perguntam sobre Camboriú, e eu não tenho nada a dizer, porque nem morava lá. Mas quando eu era criança era assim que a gente de Floripa se referia a BC.

Enfim, não é sobre isso. Estava há mais de três anos em BC quando surgiu uma vaga em Itajaí para trabalhar, e eu quis trocar. Não estava feliz no trabalho em BC, não vem ao caso os motivos, é um lugar muito atípico em termos de tipo e volume de processos. A ideia inicialmente era continuar morando em Balneário Camboriú e ir (vir) trabalhar em Itajaí nos dias de audiência, porque eu gostava de morar lá. Mas eu não sou assim, né? Enjoadinha. Até hoje eu me arrependo de não ter morado em Timbó quando eu trabalhava lá, eu gosto de morar onde estou trabalhando, gosto de me integrar à comunidade, e é uma coisa minha, e não julgo quem não faz isso, ok? Nâo tem certo nem errado, só que eu fico mais feliz. Pelo menos por enquanto, posso mudar de ideia sobre isso tranquilamente, não é para prestar contas de onde moro.

Mas eu então cismei que queria morar em Itajaí. Houve certa resistência familiar, mas viemos. E eu gosto demais de morar aqui. Só que eu demorei a pensar na minha relação familiar com a cidade, e se isso teve alguma influência na minha decisão, ou acabou acontecendo de forma inconsciente a escolha.

Meus bisavós moravam em Itajaí, foi para cá que veio a minha família materna vindo de Portugal. O vô Manuel e a vó Alice da minha mãe, ficaram em Itajaí até morrerem, assim como o irmão deles, tio Serafim, de quem eu lembro vagamente.

Minha avó materna saiu de Itajaí para ir morar em Florianópolis com o tio que estava lá, para estudar, assim como outros irmãos, cada um com sua história.

E minha tia avó Lúcia, irmã da minha avó, acabou casando com um marinheiro mercante, e, cidade do porto, e tal, ficou morando em Itajaí, assim como a outra tia avó, Lacy. Minha mãe, nascida e sempre morando em Florianópolis, vinha passar férias em Itajaí na casa da tia.

Minha tia avó Lúcia, como morou muito tempo em Florianopolis com a minha avó (porque o marido ficava fora, no navio), era considerada por mim e por meu irmão como avó também, a terceira avó. Sempre chamamos de vó, e ela sempre se comportou como tal, e eu realmente era louca por ela.

Não sei bem como isso aconteceu, mas durante a maior parte da minha vida, ela tinha um apartamento em Florianópolis e a casa em Itajaí, e revezava a moradia.

Sabe aquelas casas que são ponto de encontro das pessoas? era a casa da minha vó Lúcia. Ela, viúva, assim como a irmã Lacy, moravam juntas e faziam tudo juntas, é assim que já me lembro delas na adolescência e vida adulta. E todas as vezes que eu ia na casa de Itajaí, tinha gente lá. Vizinha, amiga, comadres (muitas, muitas comadres, minha avó era madrinha de metade da cidade), sobrinhas, sobrinhos, maridos de sobrinhas, esposas de sobrinhos, pessoas que nem ela sabia explicar como conhecia, mas conhecia. E essas pessoas iam para o almoço (sempre tinha comida para muita gente, porque as pessoas simplesmente apareciam), para o café à tarde comer cuca de banana e de coco, para deixar o carro na frente ou na garagem e ir ao centro. E nós vínhamos de Florianópolis para almoçar, passar dias, lembro de férias de julho indo ao centro com minha avó, nas lojas Hermes Macedo, à missa na Igrejinha, e no supermercado. E era muito bom. Estar com ela sempre foi muito bom para mim. Perdi minhas outras avós com 14 e 15 anos, respectivamente, então foi ela que tive na vida adulta, até 2002, então ela não me viu virando Juíza do Trabalho, o que a deixaria absolutamente cheia de orgulho. Pois se quando eu me formei ela queria que a Neves, que trabalhava na casa dela há, sei lá, quarenta anos, que trocou minhas fraldas, me chamasse de "doutora"!!

E eis que quando eu fui fazer mestrado, eu decidi fazer no campus de Itajaí, mesmo podendo fazer em Biguaçu, muito mais perto de casa. Porque eu queria vir para Itajaí e ficar na casa dela, almoçar com ela, e conversar com ela, porque nós conversávamos muito enquanto ela me empurrava toda a comida que pudesse. E Vó Lúcia era a do agradinho em dinheiro, dava R$ 20,00 para comprar um chocolate, R$ 50,00 para um lanche, isso em 1998, então pensem que lanche era esse!

Então hoje eu sei que relação eu tenho com esta cidade. É de uma memória afetiva que não sei nem dimensionar. Eu sinto saudades das vós todos os dias da minha vida, é incrível.

Eu ainda não conheço a cidade como quero, vim morar em 2019, de modo que estou nesses anos que não terminam e que parecem ter deixado tanta coisa em suspenso. Quando eu corro em direção ao centro, só em domingos, passo o mais perto do porto que eu posso, gosto de passar na frente do ferry que vai para Navegantes, na frente da Igrejinha.

Acho a Igreja Matriz espetacularmente linda, a Beira Rio foi revitalizada muito antes de eu vir, e o caminho para Cabeçudas é emocionante mesmo passando todos os dias, eu sigo me espantando com a beleza todas as vezes que passo correndo. Eu nunca enjoo de olhar o mar, é verdade. Eu lembro de ir ao mercado público com a vó para comprar peixe, mas só lembro de ir, voltar, e do cheiro.

Sinceramente, eu não sei se ela ia gostar de eu morar em Itajaí, ela achava que comigo tudo tinha que ser grandioso, que eu merecia, inclusive onde eu morasse. E sabem? é grandiosa a generosidade, a gentileza, e o carinho com que fui recebida e sou tratada aqui, especialmente pelas advogadas, advogados, servidores, vizinhos de prédio...Eu passei algumas vezes na frente da casa da vó, e da última vez, tinha sido derrubada, e era só terreno. Foi meio triste, não vou negar, embora não tenha muito motivo, era só a casa, sem ela, e eu nunca moraria lá, afinal. Sei que minha mãe acha estranho eu morar em Itajaí, minha tia também, a recordação delas é diferente, de uma cidade que o bairro que eu moro era mato, cidade portuária, meio suja, não bem frequentada, só gente que vem e vai...e não um dos maiores PIBs de Santa Catarina, com uma economia incrível, apesar do jeitinho de cidade pequena em muitos aspectos. Eu só penso que se não tivesse ido para BC, que era o meu sonho, talvez não me interessasse por Itajaí (porque os sonhos mudam), e se não tivesse a voz da vó ecoando falando de "Cabeçudax", como sendo a única praia que ela frequentava. A sensação é familiar, é de que estou sendo devidamente cuidada. Obrigada, vó.

(na foto acima, um aniversário com a vó Lúcia, eu com espinhas, meu irmão (zinho na época) Cesar Jr e Tio Lupércio, um tio avô também fora de série e que vale um post um dia)







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