Que memórias você está criando de 2020?


Tudo é perspectiva. Questões importantíssimas de hoje ganham nova análise daqui a alguns anos. Isso não tira a sua importância, só coloca em outro lugar na vida, e é necessário até para que a gente possa seguir em frente. Já pensou você até hoje sofrendo por aquele fora que levou do gatinho do colégio no século passado (literalmente, no meu caso)? Ou remoendo a vaga de emprego que não conseguiu logo que saiu da faculdade? ou o mico que pagou na primeira apresentação de projeto de alguma coisa? O sentimento foi real e não deve ser tratado com desconsideração, só lembrar que...bom, tudo passa. É minha nova máxima da autoajuda by Frozen: Let it go. E tenho amigas e conhecidas que enfrentaram o câncer com aquela coragem que me garante a verdade do que estou dizendo. E sei que elas não esqueceram, só colocaram no lugar certo depois que passou.

E eis que estamos em julho de 2020, o ano do Covid, o ano da pandemia, o ano em que tudo "parou". Mas parou mesmo? Para quem? O que eu vejo são experiências e sentimentos absolutamente diversificados desde março entre as pessoas, por motivos também diversos. Aliás, até para a mesma pessoa as experiências e sentimentos foram se alterando nos últimos quase quatro meses.

Comparar problemas também não me parece muito adequado, no geral. Cada um tem suas situações, que não acho que devam ser menosprezadas, porque estão inseridas no contexto de vida de cada um. Claro que isso não pode servir para ignorar ou desdenhar (e acho que a falta de empatia é desdém) das hipossuficiências efetivas, pelo contrário. É para contextualizar seu incômodo ou problema dentro do coletivo em que vive e exatamente ali colocar em perspectiva.

Como diz o Leandro Karnal, falando dos extremos, para a classe média alta, o problema é o tédio, enquanto que para as classes baixas, trata-se de se manter vivo. E se manter vivo não é só não contrair essa infeliz doença com a pior consequência, mas poder trabalhar e sustentar a si e aos seus, ou seja, manter-se com vida digna e viável, como se diz em direito civil. E lembrar de como conseguiu passar por isso.

O meu objetivo aqui não é julgar ninguém pelo seu comportamento durante a pandemia. Não sou autorizada a isso, não sou dona de razão alguma, e o que faço na vida e para o que sou remunerada não é julgar pessoas, é julgar processos. Então não tenho qualquer intenção de apontar o dedo para mostrar o que cada um deveria estar construindo, produzindo, nesse período muito difícil para muitas pessoas, desafiador para outras tantas, e só boring para algumas. O que pretendo é estimular cada um a tentar se projetar para final de 2021, ou março de 2022, e ter resposta para a pergunta: que lembranças você tem do período da pandemia do covid-19 em 2020?

Sei que tem gente que vai me dizer que só quer esquecer deste ano. Eu entendo, especialmente para quem perdeu um ente querido para a doença, em qualquer circunstância que isso tenha acontecido. Ainda assim, minha proposta é que você não faça isso. Não esqueça, principalmente de como você se relacionou com as pessoas, com o trabalho, com a família, e com as situações nesse período, para avaliar o que pode fazer de melhor no futuro e para saber reconhecer anos melhores e piores, e trazer para nova perspectiva, como sempre acontece após o luto, que de dor imensa vai se transformando em saudade suave.

Em termos mais leves, você pode se lembrar de como foi difícil passar a fazer teletrabalho sem ter toda a estrutura, e com filho pequeno em casa demandando, mas pode também se lembrar de que deu conta, e de que podia beijar o amor da sua vida (o filho, só para esclarecer) a cada meia hora, se quisesse. Então, para garantir que vai ter essa lembrança, que tal dar esses beijos nele mesmo quando a coisa está bem apurada? Depois ele vai voltar para a escola (que as deusas da educação e da sanidade nos ouçam) e você vai ter a lembrança de como foi ele ter aula online, e aí vai admirar ainda mais os professores e reconhecer o trabalho incrível que eles fazem com a remuneração muito, muito aquém do que merecem. Então o mínimo será valorizar o que eles fazem, e isso só vai acontecer se você não se esquecer de como está sendo agora, quando eles não estão presentes como de costume.

Exemplo white people problem, a corrida. Não tem provas de corrida, não teve minha maratona alvo, virou tudo uma grande incógnita, o que me obrigou a repensar meus objetivos e a refazer a pergunta: por que eu corro? e para que? Hoje fui até a cidade vizinha para correr, porque aqui não pode. Passei frio, que é algo que odeio, corri de máscara o tempo todo, o que não é delícia, mas no final eu estava muito melhor do que quando eu comecei. E é por isso que eu corro, por esse sentimento. Gosto de medalha, de desafio, de fazer boas marcas dentro do meu possível? Adoro. Mas a corrida é minha, e faço dela o que quero conforme a época. E ano que vem, ou depois, nos dias em que eu estiver insegura com minha corrida, meus tempos, minhas distâncias, minhas vontades, eu quero olhar fotos de hoje e lembrar de como foi punk correr durante a pandemia, mas corri e fui feliz, inclusive e principalmente quando ninguém estava vendo. Esta, portanto, é uma memória que quero criar da pandemia.

Também quero lembrar da felicidade que foi fazer duas lives com meu pai no Instagram. Ensinar ele a fazer isso, explicar o que significava, e vê-lo tão feliz em compartilhar conhecimento com pessoas que normalmente não teriam acesso a ele, foi especial. E nós nunca tínhamos participado de um evento de forma simultânea e de fato juntos, fiquei emocionada e cheia de amor. O período exigiu que intelectuais, professores, educadores, se armassem de toda a criatividade que pudessem, para criar conteúdo e compartilhar de fato com alunos, e aqui "aluno" passou a ser qualquer interessado naquele conteúdo, não é sensacional essa possibilidade de universalização? Isso sim, é globalização. Quero criar essa memória de quentinho no coração...

Eu mesma estava na tal procrastinação (aquela, do outro post) para engatar aulas online, e aí, pronto, a situação se resolveu por mim. Ou me mexia, ou as coisas iam começar a acontecer sem mim. Então vambora criar novas maneiras de levar minhas matérias com meu jeitinho para os alunos que amo.

Eu sempre fui uma pessoa que valoriza quem faz o serviço de casa, interminável, invencível, não remunerado. Sei que saio desse período admirando ainda mais quem vier limpar minha casa, meus banheiros...sou ruim nesse negócio, não gosto, não tenho talento, e estou fazendo, e sei que ano que vem vou pensar nisso. E rever a relação que todos em casa temos com a limpeza e arrumação.

No trabalho, quem manteve o seu posto, teve alguma alteração, horário diferente, ou mesmo o uso de máscara, distanciamento...enquanto teve quem perdeu não só emprego mas trabalho, teve quem passou a trabalhar mais, como os profissionais da saúde e entregadores, e com mais risco à saúde do que a maioria de nós. Como essas pessoas querem se lembrar desse período? Talvez seja o caso de ajudarmos a proporcionar lembranças melhores a quem está em situação pior agora. Ser solidário agora, da maneira que for possível, pode trazer melhores lembranças para quem foi solidário e para quem recebeu essa solidariedade, e isso aliviará o coração pelo período difícil, tenho certeza.

E aí, quais memórias quer criar do período? Você ajudou mais ou foi mais ajudado? Precisou mais ou pôde se manter com as necessidades atendidas e com isso pensar em quem precisou? Tente projetar para o futuro e veja se gosta do que vê. Se não, ainda pode mudar. Se criar só memórias horríveis, que despertam mal estar até físico, vai passar a vida toda remoendo o período, enquanto a maioria seguiu em frente, porque é o que teremos a fazer logo que possível, e deixar 2020 num lugar especial para quando forem necessárias memórias de coragem, superação, e mesmo de tristeza do fundo do poço porque ali tem a mola para subir.

Tem gente em situação realmente desesperadora, e é por essas pessoas que eu faço questão de me manter firme e grata que pelo que tenho (e não estou falando só do fato de ter o meu trabalho e o dinheiro que vem dele) e ver a melhor maneira de ter memórias que me deixem orgulhosa de quem eu fui nesse período. E talvez eu esteja escrevendo para ter certeza de que vou lembrar.

E para terminar, deixa dizer que a crença de que tudo vai passar é necessária para sobrevivência, o otimismo crítico e realista, sem negacionismo, permite que a gente saia da cama com mais vontade de seguir, que a gente sonhe. Crie memórias desses dias que te deixem com a certeza de ter feito o melhor na condição que estava, e reconheça dias melhores a partir disso.










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