Humanos, os insatisfeitos.

"Vivemos dentro de uma estrutura que define o presente como eternamente deficiente e o futuro, eternamente melhor. Se não víssemos as coisas dessa maneira, não agiríamos de forma alguma". (As doze regras para a vida. Jordan Peterson, p. 95).

No momento, tenho visto que é isso que salva muita gente de não enlouquecer. Pensar que ano que vem vai ser melhor. Ano que vem é que vai dar jeito em tudo. Só que muitas dessas pessoas são aquelas que disseram isso em 2018 para 2019, ano sem pandemia oficial (só as desgraças com as quais não deveríamos nos acostumar, mas que viram rotina na imprensa). Então, na verdade, a expectativa não é sobre si, é sobre o que farão para que o seu ano seja top. E aí pergunto: o que você está fazendo este ano para que o ano que vem seja "o ano"? Esperando o ano chegar. Ai, lamento decepcionar, não vai ser beeeem assim. Já é outubro...

Enquanto tem gente reclamando que está #chateada por não ter festa com música ao vivo, e porque tem que andar de máscara, tem quem esteja desesperado por manter o seu emprego, que em 2019 parecia garantido. Pessoas que tinham um plano de internet mediano e de repente os dois filhos passaram a estudar em casa, precisando de computador e um baita plano. Nem todo mundo conseguiu isso, e muitos alunos assistem aulas do celular (quando possível), que eu acho o fim do mundo para eles e para os incríveis professores que estão se reinventando e superando todas as suas resistências para se tornarem minimamente atraentes pelo vídeo. Intelectualmente atraentes.

E a verdade é que a pandemia é vivida de formas muito diferentes pelas pessoas, e isso também vai definir o futuro em relação a ela. Eu conheço quem sempre reclamava que passava horas no trânsito indo e voltando do trabalho e para levar filhos na escola, e dizendo como seria bom ter mais tempo em casa com eles, era sempre uma correria. E de repente a correria acabou. Será que pelo menos boa parte dessas pessoas está realmente aproveitando o tempo extra que ganhou?

Eu nem sempre aproveito, não vou mentir. Bom, deixa explicar. Não tenho ideia de como serei capaz de encaixar minha nova produtividade na rotina que deve voltar, aquela de levar e buscar o filho na escola, por exemplo. Ele sai às 17h, horário de mãe rica herdeira (que já recebeu a antecipação da legítima), e como não é o meu caso, eu sempre pareci uma louca produzindo e trabalhando (isso explica as audiências de manhã, pessoal) para às 16h30min minha tarde acabar. Com sorte consigo voltar a trabalhar pelas 20h30min. E agora a tarde é uma bênção de desenvolvimento e criação. E quando ele acaba as aulas às 17h, eu fico com ele? nem sempre. Estamos sempre no mesmo ambiente, mas nem sempre juntos. Assisto criações no minecraft, skins novas do fortnite, pergunto dos livros, agora fico de olho nos dias de prova, sentada atrás do guri. Tenho que ter consciência apurada para passar mais tempo realmente junto com ele durante o dia, e não exatamente o tempo que passava antes e que voltarei a passar. Não quero, mas tenho uma sensação horrível de que sentirei falta de alguns momentos deste ano. Não me julguem, por favor. E não estou falando de ficar de calça de moletom e não usar sapato apertado. Essa nova possibilidade de administrar o tempo, esse maldito que toma conta da minha vida normalmente, está sendo de muita utilidade para mim e para quem convive comigo. Que são poucas pessoas ao vivo, mas muuuuitas on line. Eu adoro ir aos lugares dar cursos, encontrar as pessoas, ver as expressões, mas graças ao momento atual finalmente tirei do papel meus cursos online, ainda em fase de experimentação e aperfeiçoamento, mas já pude dar aula para um universo muito maior, pessoas de cidades que eu normalmente teria muita dificuldade para me locomover (e o curso teria um custo imensamente maior) ficaram felizes em poder participar das aulas (sim, porque tem o síncrono). E como já é um projeto em execução, não tem essa de ano que vem vai ser show. O show é já, quero o maior número possível de pessoas podendo aproveitar, como eu, as oportunidades.

Me sinto mal por dizer que vou sentir falta porque sei que isso é um privilégio. E que privilégio. Hoje está chovendo, e eu fico pensando nos meninos dos aplicativos que entregam de bike, e que ainda tem quem reclame que eles atrasam e isso dá problema para eles depois. Penso que amanhã tem gente que tem que sair de casa para trabalhar de qualquer maneira (correndo risco de contágio e levando o risco para o trabalho e para casa), e outros que queriam muito poder fazer isso, mas estão com os contratos suspensos e ganhando um benefício emergencial que beira a metade do salário que recebiam e que mal dava para cobrir todas as despesas. Ou nem isso, e vão para a fila da Caixa receber o auxílio emergencial. Mas estão com saúde. E nunca foi tão importante ser grato por ter saúde.

E tem quem não deu conta de ficar só. Que o isolamento destruiu sua psique, trouxe todos os fantasmas, e que prefere pegar covid do que não ir mais ao supermercado ver e conversar com quem estiver lá. Teremos, no ano que vem, muitos doentes "novos": os sequelados da covid (porque a maioria que fica realmente doente tem sequelas, sobrevivendo), os ansiosos e com agorafobia que não sabem mais conviver com outros, os deprimidos com a solidão, aqueles com burnout, pelo excesso de produtividade do período (porque tem quem não está trabalhando e tem quem está trabalhando muito, e todos os do meio disso), os alcoólatras, os novos obesos, os cheios de lesões osteomusculares pelo teletrabalho mal gerido e excessivo, além dos problemas sociais relacionados à violência doméstica (o você achava que era um problema só das mulheres?) e seus efeitos para toda uma vida.

Muitos estão falando que tem que realmente liberar tudo e voltar ao normal, por diversos argumentos que não vêm ao caso para esse meu texto simples, e dizem para mim: "viu? eu tinha razão, a economia está caótica e tem mais gente doente de outras coisas do que de covid". Outros mantém a ideia de isolamento porque a doença não está estabilizada, mortes continuam acontecendo e não temos vacina. Eu quero esclarecer uma coisa: não tem nenhuma graça em ter razão agora, para nenhum dos lados. Ter razão não resolve nem os problemas econômicos, nem os dessas pessoas que ficaram doentes, e muito menos os das famílias que perderam entes queridos de covid, que são milhares e milhares!!! Os familiares de quem morreu de covid também estão doentes, e as doenças da mente e da alma são muito mais complexas de diagnosticar e tratar, e de gerar empatia. Além disso, pensões por morte não são suficientes, teremos gastos da Previdência não previstos, obviamente, e famílias dependendo dessas quantias para sobreviver.

Ter razão agora não é ganhar. No momento, não temos vencedores. Temos sobreviventes. Cada um à sua maneira. Claro que tem gente ganhando muito dinheiro em cima de uma crise que não tem precedentes. Mas normamente são as pessoas que já ganham em cima de crises e desgraças, gente que ganha...quase sempre. E é dinheiro que ganham. Paciência.

Mas o que quero dizer é o seguinte, para não ser uma narrativa de pessimismo: se quiser mesmo mudar, ser diferente, fazer novas coisas, e dizer que "saiu diferente da pandemia", como tanto se fala, tem que começar já, durante o período, pensando no outro a longo prazo e não só para agora. E isso inclui não ficar lembrando dos planos do ano passado, que podem não ter nada a ver com os deste ano e não fazer nenhum sentido. Somos insatisfeitos, porque agora lembramos do ano passado cheios de saudade, faz parte esquecer o que foi péssimo, porque este ano parece beeeem pior.

Mas cuidado, porque só projetar a satisfação no futuro pode ser bem frustrante. O que estamos fazendo é viver o agora, com maior ou menor dificuldade, desafios, e para muita gente, perdas irreparáveis, mas seguindo. E em final de dezembro eu quero fazer uma lista enorme não do que vou fazer ano que vem, mas do que, felizmente, pude fazer este ano, e com isso abrir caminho para os próximos. O passado não foi tão incrível como você acha agora (você reclamou pacas também, busca lá na memória ou pergunta para os amigos), e o futuro só vai ser melhor se você se mexer agora.

Como diz Brene Brown, no incrível A Coragem de Ser Imperfeito, “quando passamos uma existência inteira esperando até nos tornarmos à prova de bala ou perfeitos para entrar no jogo, para entrar na arena da vida, sacrificamos relacionamentos e oportunidades que podem ser irrecuperáveis, desperdiçamos tempo precioso e viramos as costas para os nossos talentos, aquelas contribuições exclusivas que somente nós mesmos podemos dar.” Chega de esperar. E se ficar insatisfeito significar ir atrás do seu melhor, partiu!




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