Como funciona uma procrastinadora no isolamento social?

Tomara que você, ao iniciar esta leitura, pense: nossa, mas ela é procrastinadora? quem diria...

Pela wikipedia, procrastinação é o "diferimento ou adiamento de uma ação. Para a pessoa que está a procrastinar, isso resulta em stress, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com as suas responsabilidades e compromissos". Se você se identificou, bem-vinda(o)!!

Após a descrição, há palavras que são buscadas pelas mesmas pessoas que buscam sobre procrastinação: perfeccionismo, ansiedade. Também se identificou, né? Geralmente anda tudo junto.

Bom, se você é uma pessoa que não tem esse problema, consegue se programar e faz todas as atividades a que se propõe no momento perfeito, tem método cartesiano para tudo e sempre dá conta...este texto não é para você, pessoa detestável hahahaha.

Mas vou dividir o negócio aqui. Para mim, existem dois tipos de procrastinação: de ações e de decisões. A procrastinação de decisão é mais tensa mentalmente, porque a pessoa sabe que precisa decidir, fazer uma escolha, que pode ser desistir de um projeto ou de um sonho, dizer não ou sim (ai, como é difícil dizer não), e depois disso ainda vai ter que agir. E muitas vezes a gente adia o momento da decisão exatamente porque sabe que em seguida terá que agir.

A procrastinação da tomada de decisão causa muita ansiedade. E quanto mais ansiosa a pessoa fica, mais difícil é decidir.

Então me parece que existe quem adie a decisão, mas execute em seguida, e quem adie a ação propriamente dita, pelo máximo de tempo possível, por vários motivos. Conheço gente que espera para ver se alguma coisa acontece sozinha, e aí nem vai precisar agir. Até pode dar certo, mas não é o mais comum. O comum é só ter que resolver depois de todo jeito.

Procrastinar em termos decisórios acho mais problemático, sabem? Porque enquanto não decide, as coisas vão acontecendo ao redor, e só fica mais difícil.

Felizmente, o normal é ser procrastinador mais na linha de execução normal da vida. Acho mais fácil de lidar, embora possa causar muito sofrimento, porque a pessoa sabe que tinha que estar fazendo alguma coisa.

Exemplo simples: estudar para concurso ou alguma prova específica. Primeiro a pessoa separa todo o material necessário, escolhe o livro ou vídeo do dia, pega o copo de água. Mais um copo de água. Vai ao banheiro, porque tomou muita água. Começa a estudar. Subitamente, dá vontade de lavar louça e arrumar o armário , separando as roupas para doação. Mais alguém?

Sou uma procrastinadora de ações. Só que eu descobri o seguinte, ao longo do tempo: funciono bem sob pressão. Enquanto eu tenho muito tempo para executar determinada atividade, fico empacada, me distraio, e até poderia usar o tempo para outras coisas, porque ali não vai sair nada. É só chegar perto do deadline, que tudo se altera. Fico inspirada, as ideias fluem, acordo cedo e alerta. Geralmente dá certo, apesar de ouvir a voz da minha mãe ao fundo, na minha consciência: "não deixa para fazer em cima da hora, minha filha!"

Gosto de preparar aulas próximo a elas acontecerem. E depois que tenho o material pronto, a aula pronta, se depois eu for falar sobre o mesmo assunto, volto àquele material, e bem próximo à nova data, reviso tudo, não existe aula idêntica. Dá trabalho, mas é mais legal.

Mas isso serve depois que você se conhece bem. Já fui adiando e quando chegou o último minuto não deu tempo de fazer como deveria. E aí o sofrimento é horrível.

Justamente por isso não serve para todos a procrastinação neste sentido. Tem gente que realmente tem ansiedade (muitas vezes diagnosticada), e para essas pessoas a tensão do prazo se aproximar é demais, e quanto mais chega perto, pior é a produtividade, o pensamento fica turvo e nada sai como queria. Essas pessoas tem que realmente mudar o padrão porque vão ficar doentes se ficarem procrastinando.

Tem gente que é muito relax. No estilo: pode deixar que na hora dá certo. Para quem realmente pensa assim, dá certo. Mas tem que realmente acreditar, e ser bom no resultado. Só funciona com o que a pessoa já sabe fazer.

E eu me encaixava ainda numa categoria muito chata, a do perfeccionista, e sigo tentando mudar. Não é fofo ser perfeccionista. Naquelas entrevistas em que a pessoa diz que seu defeito é ser perfeccionista, ela espera que isso seja levado em conta como uma virtude. A novidade é que não é.

Ah, querer que os livros estejam na estante conforme o autor, roupas guardadas pela cor, isso não é perfeccionismo. É organização e método, o que pode ser bom ou ruim, inclusive dependendo das pessoas com quem se convive.

Perfeccionismo tem muito mais a ver com medo e vergonha (de não ser bom o suficiente, de ser mal avaliado) do que com excelência. Sabem por que? porque perfeição não existe. Supresa! Então é uma busca incessante por algo que é inatingível e, enquanto você procura, está deixando de fazer algo realmente bom.

Brenè Brown diz que "Perfeccionismo é um movimento defensivo. [...] Perfeccionismo não é autoaperfeiçoamento. Perfeccionismo é, em essência, tentar obter aprovação. [...] O perfeccionismo não é a chave do sucesso. Na verdade, o perfeccionismo dificulta a conquista, pois está relacionada com depressão, ansiedade, compulsão e também com a paralisia da vida e a perda de oportunidades". (A Coragem de Ser Imperfeito).

E eu posso falar tranquilamente sobre o assunto. Foram meses pensando num formato para compartilhar conhecimento, de forma ampla e gratuita, até chegar no podcast, e eu fiquei pesquisando sobre aplicativos e microfones e investimentos. Também acreditava que eu tinha que estudar todos os livros de novo, todo o material que já estudei inúmeras vezes para gravar cada episódio. Até que, após um processo maravilhoso pelo qual passei com Zora Viana, eu simplesmente organizei o conteúdo, decidi que seriam drops, baixei um aplicativo e gravei no celular. Não tem glamour, tem conteúdo, e agora eu acredito que o conteúdo é suficiente, e vejam, não perfeito. O site, a mesma coisa, eu queria lindo e maravilhoso e perfeito, e então ele nunca saía, porque a verdade é que eu nunca acho bom o suficiente. Então, quando começou o isolamento e eu estava em férias, decidi aprender a criar o site e já faz tempo que agora eu penso: vou aperfeiçoando e deixando melhor. Mas com a certeza de que feito é melhor do que perfeito.

E isso se aplica como para esta fase que ainda persiste, de isolamento? Bom, primeiro deixa eu esclarecer que estou falando como a pessoa que está no #ficaemcasa. Eu posso trabalhar de casa, estava em férias inclusive, em casa, meu filho está sem aulas e meu marido já fazia teletrabalho antes, a vida dele foi a que mudou menos (ele agora nos tem junto com ele, coitado. Ou não).

Então não, não sei pelo que estão passando as pessoas que precisam sair. As que escolheram sair eu não julgo, mas posso dar a dica de que é possível ficar em casa e ser bom.

Eu gosto de sair, não sou caseira. Não gosto de fazer almoço, jantar, limpar a casa e lavar a louça. Nem conheço quem adore. Mas agora vivemos no momento de fazer o necessário. Mas gosto da minha própria companhia, do meu filho e do meu marido, e do que eu tenho por aqui.

E aí vem a procrastinação. Sabe o que acontece? Tenho a sensação de ter TEMPO. Não tenho que deixar o almoço pronto para um horário específico. Não preciso lavar a louça agora. Não preciso terminar este livro hoje. Posso escrever esse post depois. Odeio acordar cedo, e minha disciplina ferrenha para levantar e ir correr não é necessária porque não vai ter maratona para correr. Qualquer treino meia boca é suficiente para me manter viva, então acordar às 6h não vai rolar.

Conseguem imaginar o que aconteceu nas primeiras semanas, né? A louça só sendo lavada quando não havia mais talheres limpos para usar e lugar para o prato sujo na pia (temos pratos em quantidade infinita). Entre mais uma MP para estudar e a vassoura, ganha fácil a MP. Depois eu varro. E quando eu varro, já estou com ódio da sujeira. Claro.

O almoço passou a ser no horário que meus avós tomavam café à tarde. Mas também, com o filho acordando às 10 e meia...Fora que eu já costumo fazer várias coisas ao mesmo tempo, e isso só piorou.

Vi um nítido problema de produtividade em vários aspectos. Pelo prazo que não me pertence (em férias, nem sentenças tinham prazo), pela questão de escolher o que fazer primeiro, e depois, e criar uma nova rotina que seja adequada ao momento. Me vi displicente para algumas coisas, e super rigorosa para outras. Com as Medidas Provisórias sobre direito do trabalho vindo diariamente, e todas as lives dos professores para assistir, de repente eu estava super ocupada mas sem saber com o que exatamente. Porque várias coisas importantes ficaram para depois. Porque tem tempo né? E quanto mais tempo, menos se faz. Pelo menos eu sou assim.

Tinha uma lista de leituras a fazer. Mas claro que elas desconsideraram o serviço de dona de casa, que não estou acostumada, almoçavamos fora todos os dias,e várias atividades do lar. Entre a leitura do Thiago Nigro e da constitucionalidade das medidas...imaginam quem ganhou né? Nem dinheiro vou ter para aplicar mesmo.

Só que vão passando os dias, e algumas pendências se acumulam. Faço exercícios em horários estranhos (não abro mão do treino que puder fazer), porque também quero aproveitar e fazer pegando sol, ué, já que...tenho tempo. E chega a hora em que limpar a casa é a bola da vez, mas organizar a agenda e dividir as atividades com os meninos (porque né?não sou obrigada), já são outros quinhentos.

Fora o tédio. Porque incrivelmente dá tédio, e vontade de não fazer nada também. Pode? Claro que pode.

Estamos num momento em que o "tem que" se relativizou. Tem que lavar a louca. Ok. tem que ser agora? provavelmente não. Tem que ter salada todos os dias? Não, porque não vamos sair tanto para ir ao mercado.

E é um dia de cada vez. A gente acorda diferente, dias com mais, dias com menos disposição. Se organiza para limpar a casa e trabalhar de manhã, e o filho precisa de mais atenção, e desanda o plano. Está muito desafiador para as mães que estão trabalhando e com filhos em casa. Sim, mais do que para os pais, sinto muito tocar a real.

Mas essa parte de estar com os filhos vai ser das poucas coisas que sentiremos saudades. Vai ser aquele esquema louco de ficar feliz em levar para a escola quando voltarem as aulas, e sentir saudade quando chegar em casa. Mãe é um bicho estranho...

Agora vocês pensam que vou dar dicas sobre como vencer a procrastinação nestes dias de isolamento social e confinamento. Lamento. Na verdade, só queria que soubessem que estamos juntos.

Mas, se for para dar alguma sugestão, eu diria para estabelecer quando vai deixar rolar solto o dia, e quando vai ter rotina. E para os dias de rotina, fazer uma lista. Sim, uma lista de afazeres. Uma lista real, que vai considerar que você tem tanto tempo livre que não vai dar conta de fazer tudo. Porque vai olhar o instagram, lives, entrevistas, youtube, filho vai ocupar, comida vai atrasar...por isso a lista tem que ser menos rigorosa do que normalmente. First things first. A gente não coloca na lista preparar o almoço, mas vai ter que fazer a comida. Então desta vez, talvez seja bom estar na lista...porque vai ocupar um tempo. é frustrante terminar o dia achando que não fez nada. Se você colocar na lista as coisas simples mas necessárias (tirar o lixo do banheiro), você vai ter checks em vários itens. Se os itens forem: escrever um artigo, corrigir todas as atividades, preparar a videoaula, e além disso você tiver que levar o cachorro para passear, fazer comida e quiser fazer exercícios, já adianto que não vai conseguir vingar a lista E vai ficar triste.

Para uma procrastinadora, o momento é de controlar a ansiedade no caso das perfeccionistas, ainda mais passando na sua timeline gente que parece plena no caos. Não se esqueça de que é uma fotografia do dia, não o filme todo. E tem mentirosos aos montes também. Não seja um deles, e não se iluda por eles.

Para quem só procrastina de preguiça, a notícia não é das melhores: mesmo sem prazo, em algum momento coisas terão que ser feitas. Então estabelecer um prazo (não mental, anotado mesmo) pode ser uma boa ideia. Você não quer terminar a quarentena dizendo que não conseguiu ler nenhum livro, quer?

Agora a dica de ouro: eleja prioridades. E se elas precisarem mudar, não tenha receio. A prioridade de hoje pode ser luxo amanhã. Comer a comida que tinha congelado é bom também, e aí voce ganhou um tempo precioso. De excelência.

Quer realmente terminar o curso de automaquiagem online que começou e pagou? Trate como o compromisso que é. Quer finalmente aprender italiano e tem curso online? Encaixe na nova rotina. Quer organizar uma reunião por video? Consulte o pessoal para o horário e você terá o compromisso.

Eu não tenho soluções, tenho perguntas. Mas depois das primeiras semanas, já sei que algumas escolhas foram boas, e ainda vou aprender muito nesse período.

E agora deixa eu ir fazer o almoço, porque eu me planejei para escrever esse post quando eu tivesse tudo pronto na minha cabeça, até descobrir hoje de manhã que esse dia não ia chegar...e aí elegi como prioridade. bjs







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