É dezembro...e os novos hábitos?

Depois de passar metade do ano dizendo como a audiência por vídeo conferência me deixava mais cansada do que a presencial, e assim também as aulas, pela tensão da tela, conexão (ou falta de), falta de interação imediata, dificuldades de acesso, olhos pesando, eis que ministrei o único curso presencial do ano, no final de novembro, para vacinados ou com teste negativo na semana (sim, meu curso, minhas regras) , para o qual eu estava muito, muito empolgada.

Eu e os alunos, claro. Todo mundo louco por uma conversa paralela, na real, uma cotovelada para fazer piada, um café real. E veio a realidade me dar uma bofetada na face: fiquei EXAUSTA. Vejam bem, eu faço isso há mais de vinte anos. Aula presencial. Aula online eu fiz há alguns anos, logo no início de EAD, e voltei a fazer muito recentemente. Aula presencial, em pé, de salto, por 4 horas na sexta à noite, e 6 horas no sábado de manhã, falando loucamente, é o que faço há muito, muito tempo. Um ano e oito meses sem fazer isso, e eu fiquei quebrada. Teria eu envelhecido?

Meus sapatos de salto bem médio, bem razoável, no sábado, fizeram meus pés latejarem. Tem um dedinho que eu só voltei a sentir dois dias depois, uma sensação totalmente esquisita.

A turma era composta, na sua maior parte, por pessoa que já se conheciam entre si, formam inclusive um grupo bem coeso e que sempre debate muitos assuntos. Ou seja, eles tinham assunto uns com os outros, naturalmente, e isso gerou bastante debate, exemplos, os bons e velhos "causos" que a gente do direito adora compartilhar e é o que realmente faz muita diferença no presencial.

Nos cursos online, percebo que a pessoa só se dispõe a abrir a câmera e falar quando realmente tem uma dúvida muito específica, uma situação característica ou diferenciada. A impressão que tenho é de que o aluno está assistindo, descabelado, com camiseta velha, comendo uma banana, pensa num caso que tem tudo a ver com o que está sendo falado, até tem a ideia de abrir o áudio e compartilhar, mas...vai dar um trabalho, né? ativa áudio, larga a banana, daí talvez ative câmera, interrompe a professora, porque como não usou o trequinho de levantar a mão no zoom, a profe não sabe que quer a palavra, e aí o som fica meio travado com duas pessoas falando ao mesmo tempo, e aí os colegas podem achar ruim, porque também não dá para saber se eles acharam legal a intervenção...tudo isso em trinta segundos, e aí...ah, deixa para lá. Nem era tão legal assim. Ou levanta a mãozinha e a profe demora tanto para notar que já mudou o assunto, deixa quieto.

Presencial é show, é aquela animação. Eu pensava que isso era bem natural em mim, e que no vídeo é que eu tinha que me esforçar para ser interessante. Descobri que não, que sinto aquela adrenalina de palco para o ao vivo que me exige muita energia. E sem falsa modéstia, acho que consigo dar uma aula atraente, ao menos por boa parte do tempo, mesmo pelo vídeo, modulando a voz, fazendo caras e bocas (essa sou eu), rindo alto, uma gracinha aqui e ali, compartilhando material...

Na aula por vídeo, muita gente não liga as câmeras. Nos meus cursos propriamente ditos, em geral os meus alunos maravilhosos, porque somos a comunidade dos evoluídos no direito do trabalho, ligam, a meu pedido, para eu ver que estão ali, comigo, mas nos cursos de pós, eu percebi que o normal é deixar desligada a imagem. Demorei, mas pelo visto acabei acostumando, e hoje nem acho mais que estou falando sozinha, imagino um auditório silencioso, apenas. Ou seja, se o aluno está, na verdade, fazendo comida na cozinha, vendo um filme, conversando por whatsapp, rolando o instagram, e só deixa ali a aula passando, não fico sabendo. E a ignorância também pode ser uma bênção. Posso criar minha realidade mental e ser feliz nela. De vez em quando pergunto se estão todos acordados, e respondem no chat, obrigada, meu povo.

Sendo assim e tendo se passado tão somente um ano e nove meses da minha última sala de aula presencial (que foi em março de 2020, aula magna em Joinville quinta, pós em Rio do Sul sexta e sábado), eu não me lembrava mais das conversas paralelas como algo que pode incomodar, eventualmente. E claro que as conversas paralelas sempre existiram e existirão, é o que fazem alunos, eu também faço quando sou aluna, mas eu fiquei na situação de perder levemente a concentração quando aumentavam as conversas, embora sinceramente não me incomode com isso, como algo que esteja me perturbando. Também vi pessoas mexendo no celular, e acho que alguns alunos também esqueceram que eu estava vendo. Porque também eles agora fazem isso sem ser vistos. Mais do que isso, o whatsapp web permite que estejam olhando para a tela e até para a câmera enquanto lêem suas mensagens.

Minha pergunta é: será que perdemos uma parte da nossa capacidade de concentração a partir do uso das aulas e audiências por vídeo? qualquer minuto de silêncio do professor, ou troca de assunto, permite uma olhadinha rápida no whats, no email, em tudo. Mas conseguimos voltar rapidamente ao ponto, de fato? ou perdemos algo pelo caminho? Ou, pelo contrário, adquirimos novas habilidades, de alternar o foco com rapidez na troca e retomada do raciocínio?

E então vem a grande diferença das aulas online, ainda que síncronas ou ao vivo, mas gravadas, para as presenciais: nestas, única chance de captar o conteúdo é ouvindo e prestando atenção naquele momento. Se olhou mensagem, ficou pensando se respondia ou não, respondeu, já olhou outra, passaram dois minutos de aula, e aquilo ali não volta mais. Não tem possibilidade de assistir de novo depois, de ouvir mais uma vez. Não dá para "rebobinar" (a idosa), voltar ao início da gravação para ouvir de novo o que a professora falou. Não dá para assistir novamente a aula para fixar a matéria.

Mas, cá entre nós, quem realmente assiste de novo as aulas gravadas? inteiras? Bem pouca gente, vamos combinar. A pessoa gosta muito de ter a opção, mas na hora mesmo de ver...eu conheço gente que vai naquilo que está precisando, algo como: ela falou sobre isso na aula da semana passada, vou procurar, ou seja, algo específico, o que, de fato, também já ajuda muito. Poder assistir várias vezes é mágico.

Claro que estou falando de cursos para aprimoramento profissional. Cursos para concurso, assistir várias vezes, para quem é auditivo no aprendizado, é fundamental para a fixação e aí depende do foco de cada pessoa.

Gostei de dar o curso presencial? Adorei. Muito. Fiquei sinceramente feliz em falar olhando para pessoas que estavam no mesmo lugar que eu e acho que eles também gostaram de me ver me movimentando na sala, gesticulando. Mas percebi que avançamos muito no online, e que tem suas vantagens, além das evidentes. Por exemplo, além de ser em Itajaí, ou seja, alguns tiveram que viajar de outras cidades, eu tive que limitar muito o número de inscritos. Em uma sala para 70 pessoas, abri 25 vagas. Para viabilizar vinda de pessoas de fora, fiz uma imersão, sexta à noite e sábado o dia todo, o que é muito mais cansativo do que 3 quartas-feiras, por exemplo. Para eles e para mim. Tinha o deslocamento, o trânsito, ou seja, a vida como ela era antes do covid.

Se estamos falando disso como desvantagens, é porque nos desacostumamos, porque aquilo que é corrente a gente nem pensa mais como problema ou incômodo.

Mas se a gente pensa que seria ótimo poder assistir a aula em casa, descalça, cortando as unhas, sem gastar tempo extra-conteúdo, é porque...bom, adquirimos um novo hábito, temos novas possibilidades. Aquela aula online fria e distante, desinteressante, de alguns anos atrás, agora é vista como uma ótima forma de ter conteúdo com fácil acesso, sem interrupções, com professores que normalmente você não teria, mas que eu posso fazer no meu próprio tempo, sem horário marcado.

O fato é que eu, por exemplo, tenho meus hábitos de produtividade, como calçar os tênis de passeio para fazer audiência e dar aulas online, para entrar no clima trabalho. Mas só me arrumo da cintura para cima. Luto para deixar fechado o whatsapp web durante as audiências, e o telefone em si fica a 20 segundos de distância de mim (no instagram eu falo da regra dos 20 segundos para produtividade). Chego a pedir para a Alexa, essa linda assistente virtual, me avisar a cada hora para eu levantar e dar uma volta, pegar água, senão fico sentada onde estou agora, grudada nesta tela, por muitas horas. E as dores nas pernas e na coluna que eu sentia ano passado, ficando aqui por horas, não sinto mais.

Nós somos realmente seres muito adaptáveis. É minha conclusão. E é o que garante nossa sobrevivência como espécie. Não que me pareça que vamos substituir tudo por vídeo, de modo algum. Todo esse tempo em vídeo me fez ficar um tempo estranhamente isolada, e achando totalmente excelente, mas depois veio a vontade de voltar a falar com a pessoa, e não para a pessoa, e principalmente senti falta das risadas, acho que rir no vídeo não é nada parecido com rir pessoalmente, aquela risada de sair lágrimas, porque a outra pessoa está rindo também. Precisamos de abraços, ou alguma outra forma de contato físico com quem a gente gosta. Mas evoluímos muito no quesito "é possível aprender por curso online".

Sigo com reclamações da audiência por vídeo porque ainda há problemas de conexão, é muito complicado para os trabalhadores, pessoas sem instrução formal, "entrarem" na sala de audiência sem auxílio, ativar o som, por exemplo. E tem muita gente sem noção que acha que porque está fazendo a audiência pelo computador ou celular, de casa ou na rua, pode aparecer no vídeo sem camisa, de roupão, ficar andando pelo shopping enquanto vai falando com o juiz, fora as questões de comunicabilidade mesmo. Então podemos levar muito mais tempo do que o previsto para concluir uma audiência simples. Em compensação, acabou a ausência de testemunha porque estava em outra cidade, não tinha como ir para a Vara do Trabalho, etc.

Se vivêssemos num país de completa inclusão digital, eu diria que aumentamos 100% a democratização do momento da participação na audiência, com menos perda do tempo da espera para ser chamado, deslocamentos, etc. Como não é bem assim a democratização, na audiência e nos cursos, é parcial, mas é inquestionável.

Pude alcançar alunos e alunas de muitos estados do Brasil, o que eu só fazia pelo podcast. Isso me deu uma satisfação imensa.

E a máscara? Fora o momento da corrida, que eu não consigo de máscara, quando saio na rua sem máscara parece que estou sem roupa. Por outro lado, descobri que tenho algum problema de audição porque quando as pessoas estão de máscara eu não escuto direito, ou seja, eu sempre fui boa é em ler lábios. Nunca mais entramos de sapatos em casa, temos até uma pequena prateleira do lado de fora, e a vizinha tem igual.

Terapia por vídeo não consegui, tentei, mas dificilmente fico sozinha em casa, então travei na conversa, porque às vezes o assunto estava no cômodo ao lado, hahahaha.

Por mais paradoxal que pareça, senti saudades de pessoas que fiquei sem ver, e, em alguns casos, ainda não vou reencontrar tão cedo, como meus padrinhos, mas valorizo ainda mais meu tempo sozinha em casa, na minha solitude, porque são muito raros, com o casal trabalhando em casa e o filho ficando mais em casa também.

Minhas leituras, mesmo com o ano mega atribulado que estou tendo, nunca estiveram tão em dia, o que significa uma pilha do que quero ler só um pouquinho maior do que a pilha do que já li, o que é muito satisfatório. Escrevi meu livro não jurídico, com a trajetória da mudança de carreira e reflexões sobre propósito, mudança, coragem, escolhas (informações no @evoluirdireitodotrabalho, mas vou fazer um post sobre ele aqui), graças aos horários mais flexíveis e muito trabalho em horários não recomendáveis, mas estou tão feliz com o lançamento e a repercussão, que só agradeço. Consegui criar um hábito de escrita, e ano que vem tem mais, provavelmente jurídico.

Fui me adequando e este ano tentei estabelecer mais limites para o tempo de tela de todos aqui de casa, nem todos os novos hábitos devem ser tão estimulados.

E seguimos. Me conta o que você achava que nunca se adaptaria e acabou virando um hábito.






e é mão mexendo para todos os lados, e essa a única foto em que não estou: 1. com cara de louca e olhos arregalados; 2. fazendo bico com a cara torta. Como diz o pessoal, sou expressiva.

















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